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Longe da cidade: Família vive isolada há 55 anos em casa de taipa no topo de serra

Agricultura familiar e criação de animais garantem subsistência

01/02/2026 às 15h41 Atualizada em 01/02/2026 às 16h21
Por: Redação
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Família vive isolada. | Foto: YouTube/Israel Puro Sertão
Família vive isolada. | Foto: YouTube/Israel Puro Sertão

Casal de agricultores mora com familiares no alto da região serrana

Seu Gonçalo e Francisca Helena vivem uma realidade distante dos centros urbanos. No topo de uma serra em Itapipoca, interior do Ceará, a família mantêm uma rotina de isolamento da cidade há 55 anos, morando em uma casa construída inteiramente de taipa.

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A propriedade, localizada em altitude superior às comunidades vizinhas, representa o estilo de vida de milhares de famílias rurais nordestinas que enfrentam dificuldades de acesso a serviços básicos.

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A moradia apresenta rachaduras visíveis nas paredes, resultado da ação do tempo e dos ventos fortes característicos da região serrana. Segundo o morador, que tem 66 anos, a estrutura balança durante as ventanias, mas ele acredita que as casas de taipa são as mais seguras que existem. A esposa, Francisca Helena, de 49 anos, compartilha a mesma opinião sobre a resistência da construção tradicional.

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O casal tem dois filhos e dois netos que visitam frequentemente a propriedade. A rotina familiar inclui o cuidado com plantações de frutas como manga, limão, acerola, goiaba e graviola, além da criação de galinhas, patos e peixes em tanques improvisados.

Construção tradicional de taipa enfrenta deterioração após décadas

As casas de taipa ainda persistem na paisagem do interior e na vida do sertanejo, representando uma forma de moradia comum em áreas rurais do Nordeste. A técnica construtiva utiliza varas de madeira entrelaçadas horizontalmente e fincadas verticalmente no solo, preenchidas com barro.

As paredes de barro, naturalmente isolantes, regulam a temperatura interna sem necessidade de energia elétrica.

A residência da família está toda construída com essa técnica ancestral. Recentemente, seu Gonçalo realizou uma pequena reforma para ampliar a cozinha, que considerava muito pequena. Ele explica que derrubou parte da estrutura para construir um espaço maior, demonstrando conhecimento empírico sobre a manutenção desse tipo de construção.

Apesar da durabilidade, a casa apresenta sinais evidentes de envelhecimento. O morador reconhece a necessidade de reparos, especialmente no reboco externo, mas enfrentou problemas de saúde que interromperam as obras. Ele está se recuperando de problemas na coluna e no joelho, aguardando aprovação de benefício assistencial.

Agricultura familiar e criação de animais garantem subsistência

A família mantém uma produção diversificada de frutas na propriedade. Pés de limão, acerola, manga, goiaba, banana e graviola compõem o quintal produtivo. Segundo seu Gonçalo, o pé de limão produz durante todo o ano, tanto no inverno quanto no verão. A acerola também apresenta produção abundante, com diversos pés carregados de frutos.

Francisca Helena utiliza a produção para fazer doces artesanais que são vendidos na região. Ela prepara doce de mamão por R$ 15, doce de leite por R$ 18 e cocada por R$ 3 a unidade. Os produtos são comercializados principalmente sob encomenda, representando uma fonte complementar de renda familiar.

A criação de peixes é outra atividade importante. A família mantém tilápias em um tanque escavado no solo, que também serve para armazenar água para irrigação das plantas. O sistema aproveita a água da chuva e de nascentes distantes aproximadamente um quilômetro da residência.

Acesso precário e falta de infraestrutura básica

O isolamento geográfico representa um dos principais desafios enfrentados pela família. A propriedade fica no topo da serra, em altitude superior às comunidades vizinhas, com acesso apenas por trilha íngreme. Segundo os moradores, apenas motos e pessoas a pé conseguem subir o caminho. Carros só sobem quando não está chovendo.

Na zona rural, o saneamento segue o que é comum nessas localidades: a água é armazenada em poços artesianos, cacimbas e lagos. No caso desta família, a água vem de uma nascente distante, através de uma tubulação improvisada. Eles utilizam tanques forrados com lona plástica para armazenamento.

A família não possui acesso regular a serviços públicos. Francisca Helena revelou que não possui celular e que o Bolsa Família foi bloqueado, exigindo várias idas ao CRAS municipal para resolver a situação.

Ela relatou ter ido cinco vezes ao órgão sem conseguir reativar o benefício, que é fundamental para complementar a renda familiar.

Necessidade urgente de reforma e novos materiais

Um dos principais problemas enfrentados atualmente é a deterioração das lonas plásticas utilizadas nos tanques de armazenamento de água. Seu Gonçalo explica que possui um tanque grande escavado, com dimensões de aproximadamente 8 metros por 26 metros, que necessita de lona nova para funcionar adequamente.

A lona mais resistente custa cerca de R$ 38 por metro, enquanto a versão mais fina custa R$ 24 por metro. Para cobrir todo o tanque, seriam necessários aproximadamente 50 metros de material, totalizando investimento superior a R$ 1.200. A família utilizava uma lona mais fina, mas ela durou apenas dois anos e está completamente furada.

O morador recebe auxílio por problemas de saúde relacionados à coluna, mas o valor é insuficiente para realizar todas as reformas necessárias.

Ele aguarda também a aprovação de benefício relacionado aos problemas no joelho. A venda de polpas de frutas e doces artesanais ajuda, mas não é suficiente para investimentos maiores na propriedade.

Vida simples valoriza tranquilidade e conexão com natureza

Apesar das dificuldades, seu Gonçalo enfatiza a qualidade de vida proporcionada pelo isolamento. Ele descreve a rotina como tranquila, calma e pacífica, ideal para quem busca sossego. O clima da serra é considerado excelente pela família, com vegetação verdejante após as chuvas.

A neta Maria Vitória, que mora nos Picos e passa férias com os avós, confirma que ama ficar na propriedade. O fogão a lenha ainda é utilizado regularmente, apesar de a família possuir fogão a gás. Segundo Francisca Helena, a lenha cozinha os alimentos mais rapidamente que o gás.

A família cultiva até mesmo bucha vegetal, utilizada para lavar louças, dispensando a necessidade de comprar esponjas industrializadas. A autossuficiência parcial em alimentos e produtos básicos é valorizada pelos moradores, que destacam a fartura de frutas disponíveis o ano todo.

Os familiares próximos, incluindo mãe, cunhadas e filho de seu Gonçalo, moram nas redondezas, formando uma pequena comunidade familiar. Desde 2009, quando retornaram definitivamente para a serra após 18 anos morando nos Picos, eles mantêm esse estilo de vida tradicional que resiste às transformações urbanas.

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