
Em uma reviravolta que faria Juca Chaves gargalhar do firmamento, a música Take Me Back to Piauí acaba de conquistar o que nenhum piauiense jamais sonhou: o Oscar de Melhor Filme Internacional. Sim, você não leu errado. A canção que mistura português com um inglês de boteco, criada há mais de cinco décadas, hoje é parte de um fenômeno cinematográfico global.
Quem diria que o refrão Hey-hey, dee-dee, take me back to Piauí se tornaria o mantra preferido dos críticos de Cannes a Hollywood? Walter Salles, em sua genialidade (ou surto), decidiu que Ainda Estou Aqui precisava de uma canção que representasse o absurdo da realidade brasileira. E o que é mais surreal: uma música pedindo para voltar ao Piauí em inglês macarrônico? O resultado pode ser visto na cena em que Rubens dança com Eunice Paiva, na sala de sua casa, o hit do menestrel maldito.
Como piauiense, posso finalmente abandonar aquela velha desculpa de "pelo menos temos o Parque Nacional da Serra da Capivara" quando os paulistas perguntam o que há de interessante no meu estado. Agora temos um Oscar. Não importa que a música tenha sido composta por um carioca, o que vale é o resultado.
A ironia é que Juca Chaves, mestre da sátira, criou Take Me Back to Piauí zombando justamente da fixação brasileira por reconhecimento internacional. E, em 2025, temos uma plateia de celebridades americanas aplaudindo de pé uma letra que 99% deles não entende, mas todos acham exótica.
Nas festas pós-Oscar, já posso imaginar Karla Gascón tentando pronunciar "Piauí" depois de sua terceira taça de champanhe. E Nanda Torres explicando que Piauí não é a mesma coisa que açaí.
O turismo no estado, sem dúvida, vai explodir. Gringos de todas as partes do planeta desembarcarão em Teresina esperando encontrar praias e sambistas, apenas para dar de cara com a quentura de 40 graus e a paçoca de carne de sol. "Não é exatamente o que imaginávamos, mas é autêntico", dirão, enquanto aplicam protetor solar fator 100.
Os piauienses, é claro, aproveitarão sua estatueta ao máximo. Camisetas com Hey-hey, dee-dee estampadas já devem estar sendo vendidas em cada esquina. Pelas ruas, placas indicando Rota Oscar 2025. Restaurantes locais rebatizando pratos tradicionais com nomes como Surubim à Juquinha e Capote ao molho Academy.
Uma estátua de Juca Chaves na entrada da cidade, segurando uma estatueta do Oscar, deve ser erigida em breve. E, o 2 de março, abrigará um novo feriado municipal: o Take Me Back Day.
Como filho dessa terra, estou dividido entre o orgulho e a sensação de que somos todos parte de uma pegadinha cósmica armada por Juca Chaves do Além. Mas dane-se, agora o Piauí tem Oscar e Los Angeles não tem um bode assado tão bom quanto o nosso.
Para o momento, só me resta esperar que o próximo filme de Walter Salles inclua Morango do Nordeste, de Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados, na trilha sonora. Com isso, o Oscar e o Grammy já estarão garantidos.
Carlos Castelo. Cronista, compositor e frasista. É ainda sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
Mín. 24° Máx. 41°